Terça-feira, Janeiro 26, 2010


"O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem..." essa lenga-lenga ou trava línguas de infância surge aos meus olhos numa movimentada estação de metro da minha capital. Sorrio no meio da turba que me incita a não contemplar estas palavras com sentido. Sei que se seguisse viagem, um pouco mais para baixo ia encontrar também o coelho apressado da Alice, aquela personagem fantástica do país das maravilhas de quem me recordo sempre, numa reflexão pessoal na frequência com que o imito. Fico um pouco mais feliz, menos só, na multidão. Se alguém se recordou desta frase e deste símbolo da pressa insana e insensata é porque mais alguém se coloca à margem da espiral violenta dos passos apressados. Será que todas estas pessoas, de olhares pouco brilhantes, sem fé, ofuscados pela luz difusa do metro, do comboio ou das ruas que sobem e descem ao ritmo cadenciado dos seus passos, sabem efectivamente para onde vão? O que os move? Reconhecerão elas tão distintamente o seu caminho que o ensejo de o alcançar os impele a toda a velocidade para esse lugar?

Eu gostava de pensar que o desconhecem, que se apercebem, frequentemente ou ocasionalmente, que a vida passa depressa e que por isso sabe melhor se for degustada bem devagar. Gostava de pensar que não sou só eu a atrasar deliberadamente o passo porque, certamente, já me atrasei e não fará qualquer diferença porque o atraso já foi sentido, notado e assinalado. Porque já me atrasei nas coisas mesmo importantes, no segurar da tua mão quando, em silêncio, não a pediste mas que te teria dado a força indispensável para poderes saltar. Porque me atrasei nos anos, meses, minutos e segundos a dizer que te amava por tudo aquilo que és, que desejas ser e que serás um dia. Perdi o momento certo de dizer que a minha vida é como um quadro a meio pintar, uma aguarela esbatida de tons, mas que a aceito assim, como aceito em toda a sua plenitude todos aqueles que eu deixo que sejam meus.

Com todos estes pensamentos senti que me encontrei e perdi por outros caminhos. O certo é que cheguei ao destino, envolvida nas minhas palavras e nem me consigo recordar de nenhuma cara com quem me terei cruzado até chegar aqui... Recordo o relógio de bolso do coelho branco... e sorrio!

2 partilhas:

The Star disse...

Voltaste a publicar os teus textos, oba!! Já tinha saudades de te ler.
Aliás, as saudades não são só de te ler...

papiro disse...

Oh!!!! Minha querida, obrigada por me leres. É sempre bom ver a tua passagem por aqui, apesar de andar muito mais ausente.

Também tenho imensas saudades, isto assim não pode ser! Temos que combinar qualquer coisa.

Beijoooooooooooooo