Quarta-feira, Julho 07, 2010

Tributo aos que partem

Há muito pouco tempo faleceu um dos meus escritores preferidos, aquele que fui descobrindo já adulta, quase a medo. Diziam que era de difícil leitura, que a pontuação era estranha, que as personagens eram bizarras, que isto e que aquilo. Talvez por tudo isto e pela quantidade de livros publicados tive curiosidade de o ler, talvez por nenhuma destas razões mas por outras inexplicáveis. O certo é que a medo, peguei numa primeira obra e apaixonei-me pelas personagens fabulosas, pelas pequenas histórias dentro da verdadeira história, pelos pensamentos cruzados da ou das figuras que vão crescendo em múltiplas dimensões no desenrolar dos acontecimentos. Falo, obviamente, de José Saramago. Razões políticas e religiosas à parte, fui descobrindo uma escrita livre que nos permite uma maior capacidade para criar as suas, que se tornam nossas, personagens; fui-me deixando envolver pelos cenários plausíveis e pelo irrealismo das situações tantas vezes caricatas e peculiares. Foi com pesar, verdadeiro pesar que recebi a notícia, depois do almoço, que havia falecido este escritor que fui aprendendo a gostar. Felizmente deixou-nos uma vasta obra, que será sempre curta perante tudo aquilo que tinha para nos contar... Foram inevitáveis as lágrimas, como aquelas do cão das lágrimas, personagem verdadeiramente prodigiosa, mais forte do que muitas das personagens humanas, inevitável foi também a corrida à estante da sala para abrir e começar mais uma viagem ao seu mundo fántástico que é o mundo das suas palavras...
Ontem nova tristeza para mim ao saber pelo Jornal da Noite que mais uma estrela da nossa literatura nos deixou. Se conheci Saramago há relativamente pouco tempo, quando tive curiosidade e vontade de o descobrir, Matilde Rosa Araújo foi com quem cresci, aprendendo a gostar de ler, bebendo as suas palavras cheias de musicalidade. Se há poemas que me lembro da minha infância são os de Matilde, aqueles que o tempo ainda não conseguiu apagar e que estão gravados na minha memória pela quantidade de vezes que eram repetidos.
O meu pequeno e modesto tributo a estes dois nomes que estimo e por cuja obra literária tenho o respeito e reverência, são estas minhas singelas palavras e a certeza de que os continuarei a ler.

Terça-feira, Janeiro 26, 2010


"O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem..." essa lenga-lenga ou trava línguas de infância surge aos meus olhos numa movimentada estação de metro da minha capital. Sorrio no meio da turba que me incita a não contemplar estas palavras com sentido. Sei que se seguisse viagem, um pouco mais para baixo ia encontrar também o coelho apressado da Alice, aquela personagem fantástica do país das maravilhas de quem me recordo sempre, numa reflexão pessoal na frequência com que o imito. Fico um pouco mais feliz, menos só, na multidão. Se alguém se recordou desta frase e deste símbolo da pressa insana e insensata é porque mais alguém se coloca à margem da espiral violenta dos passos apressados. Será que todas estas pessoas, de olhares pouco brilhantes, sem fé, ofuscados pela luz difusa do metro, do comboio ou das ruas que sobem e descem ao ritmo cadenciado dos seus passos, sabem efectivamente para onde vão? O que os move? Reconhecerão elas tão distintamente o seu caminho que o ensejo de o alcançar os impele a toda a velocidade para esse lugar?

Eu gostava de pensar que o desconhecem, que se apercebem, frequentemente ou ocasionalmente, que a vida passa depressa e que por isso sabe melhor se for degustada bem devagar. Gostava de pensar que não sou só eu a atrasar deliberadamente o passo porque, certamente, já me atrasei e não fará qualquer diferença porque o atraso já foi sentido, notado e assinalado. Porque já me atrasei nas coisas mesmo importantes, no segurar da tua mão quando, em silêncio, não a pediste mas que te teria dado a força indispensável para poderes saltar. Porque me atrasei nos anos, meses, minutos e segundos a dizer que te amava por tudo aquilo que és, que desejas ser e que serás um dia. Perdi o momento certo de dizer que a minha vida é como um quadro a meio pintar, uma aguarela esbatida de tons, mas que a aceito assim, como aceito em toda a sua plenitude todos aqueles que eu deixo que sejam meus.

Com todos estes pensamentos senti que me encontrei e perdi por outros caminhos. O certo é que cheguei ao destino, envolvida nas minhas palavras e nem me consigo recordar de nenhuma cara com quem me terei cruzado até chegar aqui... Recordo o relógio de bolso do coelho branco... e sorrio!

Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

Feliz Natal


Este é um Natal com um sabor diferente de todos os outros que já passaram... uma nova etapa se iniciou na minha vida e por isso tudo tem um gosto especial... O montar da árvore, o comprar dos presentes, a preparação do jantar, a lareira acesa.
A todos os meus amigos, familiares e conhecidos que me acompanham nesta minha caminhada e que iluminam a minha vida os desejos de uma época festiva muito feliz onde a paz e a harmonia reinem nos vossos corações e à volta da vossa mesa recheada de sorrisos e de amor. As pessoas especiais, perto ou longe, vivem dentro do nosso coração e em consequência, partilham connosco a mesa da consoada.
A todos aqueles que amo um Feliz e Santo Natal e um 2010 recheado de coisas boas!
Obrigada por tudo, por fazerem parte de mim!

Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Há dias em que não se devia mesmo ir ao cinema sozinha... e quando digo sozinha quero dizer mesmo sozinha... as cadeiras vazias tornaram o filme especial, era apenas para mim, só eu, a história, as personagens e a música. O passado assaltou-me como uma invasão que eu não tinha previsto ou pedido, ou talvez não tivesse pensado que me deixaria da forma como me deixou. Mas a verdade é que há dias assim! Em que o sentimento de vazio é mais forte, onde algumas peças do puzzle se revelam e que não estão, efectivamente, no sítio certo. Há mesmo dias e filmes que não devem ser vistos sozinha... Mas, depois passa e só se pode dizer que valeu a pena!

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Piaf


"Piaf, Piaf, Piaf - Madame Piaf"

A estreia foi nos Açores e a crítica mais do que favorável a este novo espectáculo do senhor Filipe la Féria. Depois desta estreia num local importante na história da vida de Edith Piaf, o elenco regressou ao continente, para a estreia no maravilhoso Rivoli. Também não tive o prazer de assistir a este acontecimento na cidade do Porto, no entanto, aquilo que li sobre o espectáculo e as impressões que me transmitiram as pessoas que assistiram, levaram-me a desejar rumar até à cidade do Porto para assistir. No entanto, as coisas nem sempre correm como nós gostariamos ou esperamos e acabei por só aplaudir este espectáculo no "meu" Politeama. Nova estreia, novas boas impressões sobre tudo aquilo que se passava em cima daquelas tábuas.

Sem pano caído, assim que me sentei nos camarotes (após recordar uma outra peça onde uma personagem encantadora vagueava por esse espaço) deixei-me levar para a França de Piaf desde o primeiro momento. A nudez do palco levou-me novamente às recordações de outras produções passadas que deixam saudades e sorrisos. Claro que ir uma única vez assistir era simplesmente impossível.



Para poder dizer que gostei muito das interpretações das duas Piaf's que se revezavam no papel principal, tive que as ir ver às duas - Vanda Stuart e Sónia Lisboa numa extraordinário interpretação. Se é verdade que já me tinha deixado arrebatar pela voz e talento da Vanda Stuart, que conhecia de outras aventuras, a verdade é que a entrega ao papel da petite Sónia me levou às lágrimas, como que tomada de assalto pela sua voz, pela dor da personagem que de pequena e indefesa, se transforma numa diva que cresce perante os nossos olhos. Muitos Parabéns!

Uma palavra especial também a Bruno Galvão e Ruben Madureira, porque Lisboa já sentia saudades da vossa luz, do vosso talento e da vossa voz, claro! Rui Andrade, uma surpresa neste musical que não contava com o sua participação nem nos Açores, nem no Porto e que foi crescendo dentro das suas personagens com a passagem do tempo. Ao vosso carinho sempre pronto, nem preciso de agradecer... voltem depressa, com outros projectos, que eu (que nós) lá estarei(mos) a aplaudir.

De referir ainda, Paula Sá, numa Marlene deslumbrante e sensual, como ela só! E, sem dúvida, terminar com a interpretação absolutamente brilhante de Noémia Costa. Que nos conduz num carrosel de emoções, do riso tímido, à gargalhada e, finalmente, às lágrimas impossíveis de conter. Na cena final, tenho que ser sincera, podia estar sozinha no palco, porque as outras duas figuras presentes esfumam-se perante a Toine. Bravo! Quero mais!


No domingo, dia 18 de Outubro de 2009, o pano desceu pela última vez no Politeama para esta Piaf e voltará a subir com uma gaiola cheia de doidas...

Obrigada e um beijo de amizade sincero a todas aquelas que partilharam comigo mais esta despedida! Até qualquer dia! Espero que para breve!

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

"A turma tinha vinte e seis alunos e era a décima do sexto ano. Os Bons, os Maus e os Águas faziam parte dela. Como todas as turmas da Escola, tinhas as suas beldades, os seus palhaços, os seus Quixotes... e uma multidão de Sanchos.
As crianças do 6.º 10.ª eram uma amostra da população escolar. Umas tinham pais ricos, outras tinham pais pobres - muito pobres ou pouco pobres - e outras não tinham pais ou, se tinham, não sabiam. Algumas eram felizes, outras estavam na dúvida, outras pensavam que não. Gostavam todas de rir, estudavam muito pouco e eram raras as meninas que não tinham namorado ou esperança de vir a ter.
Entre si eram diferentes. Eram loiros e morenos, tinham sardas e borbulhas, olhos azuis e castanhos, óculos pouco assumidos com medo de uma bolada ou a alcunha de "cangalhas", e portavam-se de acordo com a sua natureza e vida familiar. Quando um professor deixava, trepavam as paredes e ... "Viva a rebaldaria!", mas se os mantinha cuidados na palma da sua mão, baixavam as guardas todas, levantavam a viseira e rendiam-se à firmeza, se a firmeza tinha amor.
Falar daquelas crianças é alinhar pedacinhos dos puzzles das suas vidas. Defini-las e explicá-las já não seria possível pois, indivíduos que são, serão sempre inatingíveis no rosto da sua alma. Todavia, quem os conheceu bem e privou com eles, até mais do que a família, sente que sempre houve alguns a quem foi dado o chegar à porta do seu castelo... Por dois anos? Por um momento?...
É isso o que uma escola tem de triste: eles vêm e recebem doses de ternura, saber e atenção e depois vão-se embora e não voltam mais. Para quem os conheceu, o tempo não passa; podem crescer, ter barba, bigode, casar e ter filhos que, no coração onde se instalaram, são sempre meninos e não crescem mais.
E, ao acolher cada ano os que chegam, ao comparar falhas, virtudes, sorrisos, há sempre a tendência de apelar para o passado, à procura dos outros que deixaram marcas, e eram tão iguais aos que agora chegam.
É assim que se pensa notando semelhanças: Meu Deus, a princesa das neves voltou! E o Manel, o Toninho... E, olha a Adélia e a Mariazinha!...
Então o tempo pára, a história repete-se e não custa tanto perdê-los mais tarde, pois ano após ano, tornam a voltar.
(Maria Lucília Bonacho - O Futuro está a estudar)
Encontrei este texto perdido ou, se quiserem, guardado dentro de uma gaveta lá de casa. Já não me lembrava dele, mas assim que o comecei a ler as lágrimas surgiram inevitavelmente. Usando o exemplo dado pelo texto, alguns olham o castelo do lado de fora e nunca se atrevem ou conseguem ultrapassar a porta de madeira para anunciar a sua chegada, outros há que, se ficam pela porta do castelo e, como chegaram, partem da mesma forma, sem anúncio prévio, deixando um rasto da sua passagem, como uma fragrância que permanece. E há os outros... aqueles que partem, sem partir, que regressam para matar as saudades ou para deixar ainda mais! Aqueles que abrem com estrondo a porta do castelo e exigem conhecer os seus recantos ou que sobem as escadas bem devagarinho e aproveitam para espreitar as divisões todas. Esses serão sempre os meus meninos e não vão crescer nunca!
Beijo grande a todos aqueles que entraram dentro do meu castelo ou a quem eu permiti que entrassem e que voltem sempre, porque deixam mesmo saudades e eu não gosto de ficar com saudades. Dói!
Há dias assim... a meio cumprir,
pela metade,
como se faltasse uma parte, só não sei se do dia se de mim.
Como se uma neblina espessa me entorpecesse o pensamento e os movimentos,
envolta num nevoeiro denso que permite ver as formas de modo idefinido e que, certamente,
desencadeará uma tempestade.
Temo as minhas tempestades e tormentas,
rebentam sem avisar, sem grandes motivos
e num turbilhão arrastam quem se atrever a colocar-se à frente.
A minha parte racional procura antever esses momentos, mas nem sempre os consigo controlar.
Não sei porque fiquei assim!
Não foi por nada em especial, não foi um gesto ou uma palavra
foi qualquer coisa subtil que mudou o meu dia,
qualquer coisa que deixei escapar por entre os dedos
e que não consegui reconhecer,
mas que me deixou nesta plácida melancolia,
naquele silêncio que depois do relampejo
rebenta num trovão poderoso...
A verdade é que a minha vida é uma mistura de outras vidas
que, sem querer, fui deixando que fizessem parte de mim,
por isso, às vezes estes dias incompletos,
de que não controlo a totalidade
devem-se também a essas pessoas
que cruzaram o limiar da porta e que entraram,
com ou sem a minha permissão,
na minha casa, nos meus espaços... enfim, na minha vida!

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

Não te conheço no todo

Não te conheço bem...
que máscara trazes tu hoje? Reconheço algumas, mas não todas.
Nunca todas!
Também nem sempre me encontro na imagem que se reflecte, baça, no espelho do quarto
Há dias em que sei que sou muitas coisas diferentes,
que não tenho aquele ar mortiço e cansado, que irradio luz, que sou multicolor ou que o meu olhar é sombrio, é tudo menos azul!
Conheço-te pouco... conheço-me pouco!
Como se olhasse para dentro de um poço de água límpida e tranquila,
que só deixa ver a imagem que está à superfície, espreitando o interior do poço.
E o resto?
Pois, isso não sei!
É turvo, difuso, muitas vezes incoerente, turbulento, tem matizes múltiplas de cores e... e é preciso querer descobrir mais, sempre um pouco mais.
Por isso acho que não te conheço bem, consigo encontrar no teu mundo,
na tua maneira de olhar, de dizer, no teu gesto, num sorriso, algo que ainda não tinha visto ou prestado a devida atenção.
Quanto a mim... a busca é o caminho e se há máscaras fáceis de pôr e retirar,
há sempre outras que é preciso reconhecer para poder manter quando quero
ou abandoná-la definitivamente e caminhar mais leve!
Não te conheço todo, por isso te amo assim, num sentimento que se expande em cada nova descoberta.