Quinta-feira, Novembro 05, 2009

Há dias em que não se devia mesmo ir ao cinema sozinha... e quando digo sozinha quero dizer mesmo sozinha... as cadeiras vazias tornaram o filme especial, era apenas para mim, só eu, a história, as personagens e a música. O passado assaltou-me como uma invasão que eu não tinha previsto ou pedido, ou talvez não tivesse pensado que me deixaria da forma como me deixou. Mas a verdade é que há dias assim! Em que o sentimento de vazio é mais forte, onde algumas peças do puzzle se revelam e que não estão, efectivamente, no sítio certo. Há mesmo dias e filmes que não devem ser vistos sozinha... Mas, depois passa e só se pode dizer que valeu a pena!

Terça-feira, Outubro 20, 2009

Piaf


"Piaf, Piaf, Piaf - Madame Piaf"

A estreia foi nos Açores e a crítica mais do que favorável a este novo espectáculo do senhor Filipe la Féria. Depois desta estreia num local importante na história da vida de Edith Piaf, o elenco regressou ao continente, para a estreia no maravilhoso Rivoli. Também não tive o prazer de assistir a este acontecimento na cidade do Porto, no entanto, aquilo que li sobre o espectáculo e as impressões que me transmitiram as pessoas que assistiram, levaram-me a desejar rumar até à cidade do Porto para assistir. No entanto, as coisas nem sempre correm como nós gostariamos ou esperamos e acabei por só aplaudir este espectáculo no "meu" Politeama. Nova estreia, novas boas impressões sobre tudo aquilo que se passava em cima daquelas tábuas.

Sem pano caído, assim que me sentei nos camarotes (após recordar uma outra peça onde uma personagem encantadora vagueava por esse espaço) deixei-me levar para a França de Piaf desde o primeiro momento. A nudez do palco levou-me novamente às recordações de outras produções passadas que deixam saudades e sorrisos. Claro que ir uma única vez assistir era simplesmente impossível.



Para poder dizer que gostei muito das interpretações das duas Piaf's que se revezavam no papel principal, tive que as ir ver às duas - Vanda Stuart e Sónia Lisboa numa extraordinário interpretação. Se é verdade que já me tinha deixado arrebatar pela voz e talento da Vanda Stuart, que conhecia de outras aventuras, a verdade é que a entrega ao papel da petite Sónia me levou às lágrimas, como que tomada de assalto pela sua voz, pela dor da personagem que de pequena e indefesa, se transforma numa diva que cresce perante os nossos olhos. Muitos Parabéns!

Uma palavra especial também a Bruno Galvão e Ruben Madureira, porque Lisboa já sentia saudades da vossa luz, do vosso talento e da vossa voz, claro! Rui Andrade, uma surpresa neste musical que não contava com o sua participação nem nos Açores, nem no Porto e que foi crescendo dentro das suas personagens com a passagem do tempo. Ao vosso carinho sempre pronto, nem preciso de agradecer... voltem depressa, com outros projectos, que eu (que nós) lá estarei(mos) a aplaudir.

De referir ainda, Paula Sá, numa Marlene deslumbrante e sensual, como ela só! E, sem dúvida, terminar com a interpretação absolutamente brilhante de Noémia Costa. Que nos conduz num carrosel de emoções, do riso tímido, à gargalhada e, finalmente, às lágrimas impossíveis de conter. Na cena final, tenho que ser sincera, podia estar sozinha no palco, porque as outras duas figuras presentes esfumam-se perante a Toine. Bravo! Quero mais!


No domingo, dia 18 de Outubro de 2009, o pano desceu pela última vez no Politeama para esta Piaf e voltará a subir com uma gaiola cheia de doidas...

Obrigada e um beijo de amizade sincero a todas aquelas que partilharam comigo mais esta despedida! Até qualquer dia! Espero que para breve!

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

"A turma tinha vinte e seis alunos e era a décima do sexto ano. Os Bons, os Maus e os Águas faziam parte dela. Como todas as turmas da Escola, tinhas as suas beldades, os seus palhaços, os seus Quixotes... e uma multidão de Sanchos.
As crianças do 6.º 10.ª eram uma amostra da população escolar. Umas tinham pais ricos, outras tinham pais pobres - muito pobres ou pouco pobres - e outras não tinham pais ou, se tinham, não sabiam. Algumas eram felizes, outras estavam na dúvida, outras pensavam que não. Gostavam todas de rir, estudavam muito pouco e eram raras as meninas que não tinham namorado ou esperança de vir a ter.
Entre si eram diferentes. Eram loiros e morenos, tinham sardas e borbulhas, olhos azuis e castanhos, óculos pouco assumidos com medo de uma bolada ou a alcunha de "cangalhas", e portavam-se de acordo com a sua natureza e vida familiar. Quando um professor deixava, trepavam as paredes e ... "Viva a rebaldaria!", mas se os mantinha cuidados na palma da sua mão, baixavam as guardas todas, levantavam a viseira e rendiam-se à firmeza, se a firmeza tinha amor.
Falar daquelas crianças é alinhar pedacinhos dos puzzles das suas vidas. Defini-las e explicá-las já não seria possível pois, indivíduos que são, serão sempre inatingíveis no rosto da sua alma. Todavia, quem os conheceu bem e privou com eles, até mais do que a família, sente que sempre houve alguns a quem foi dado o chegar à porta do seu castelo... Por dois anos? Por um momento?...
É isso o que uma escola tem de triste: eles vêm e recebem doses de ternura, saber e atenção e depois vão-se embora e não voltam mais. Para quem os conheceu, o tempo não passa; podem crescer, ter barba, bigode, casar e ter filhos que, no coração onde se instalaram, são sempre meninos e não crescem mais.
E, ao acolher cada ano os que chegam, ao comparar falhas, virtudes, sorrisos, há sempre a tendência de apelar para o passado, à procura dos outros que deixaram marcas, e eram tão iguais aos que agora chegam.
É assim que se pensa notando semelhanças: Meu Deus, a princesa das neves voltou! E o Manel, o Toninho... E, olha a Adélia e a Mariazinha!...
Então o tempo pára, a história repete-se e não custa tanto perdê-los mais tarde, pois ano após ano, tornam a voltar.
(Maria Lucília Bonacho - O Futuro está a estudar)
Encontrei este texto perdido ou, se quiserem, guardado dentro de uma gaveta lá de casa. Já não me lembrava dele, mas assim que o comecei a ler as lágrimas surgiram inevitavelmente. Usando o exemplo dado pelo texto, alguns olham o castelo do lado de fora e nunca se atrevem ou conseguem ultrapassar a porta de madeira para anunciar a sua chegada, outros há que, se ficam pela porta do castelo e, como chegaram, partem da mesma forma, sem anúncio prévio, deixando um rasto da sua passagem, como uma fragrância que permanece. E há os outros... aqueles que partem, sem partir, que regressam para matar as saudades ou para deixar ainda mais! Aqueles que abrem com estrondo a porta do castelo e exigem conhecer os seus recantos ou que sobem as escadas bem devagarinho e aproveitam para espreitar as divisões todas. Esses serão sempre os meus meninos e não vão crescer nunca!
Beijo grande a todos aqueles que entraram dentro do meu castelo ou a quem eu permiti que entrassem e que voltem sempre, porque deixam mesmo saudades e eu não gosto de ficar com saudades. Dói!
Há dias assim... a meio cumprir,
pela metade,
como se faltasse uma parte, só não sei se do dia se de mim.
Como se uma neblina espessa me entorpecesse o pensamento e os movimentos,
envolta num nevoeiro denso que permite ver as formas de modo idefinido e que, certamente,
desencadeará uma tempestade.
Temo as minhas tempestades e tormentas,
rebentam sem avisar, sem grandes motivos
e num turbilhão arrastam quem se atrever a colocar-se à frente.
A minha parte racional procura antever esses momentos, mas nem sempre os consigo controlar.
Não sei porque fiquei assim!
Não foi por nada em especial, não foi um gesto ou uma palavra
foi qualquer coisa subtil que mudou o meu dia,
qualquer coisa que deixei escapar por entre os dedos
e que não consegui reconhecer,
mas que me deixou nesta plácida melancolia,
naquele silêncio que depois do relampejo
rebenta num trovão poderoso...
A verdade é que a minha vida é uma mistura de outras vidas
que, sem querer, fui deixando que fizessem parte de mim,
por isso, às vezes estes dias incompletos,
de que não controlo a totalidade
devem-se também a essas pessoas
que cruzaram o limiar da porta e que entraram,
com ou sem a minha permissão,
na minha casa, nos meus espaços... enfim, na minha vida!

Quarta-feira, Agosto 05, 2009

Não te conheço no todo

Não te conheço bem...
que máscara trazes tu hoje? Reconheço algumas, mas não todas.
Nunca todas!
Também nem sempre me encontro na imagem que se reflecte, baça, no espelho do quarto
Há dias em que sei que sou muitas coisas diferentes,
que não tenho aquele ar mortiço e cansado, que irradio luz, que sou multicolor ou que o meu olhar é sombrio, é tudo menos azul!
Conheço-te pouco... conheço-me pouco!
Como se olhasse para dentro de um poço de água límpida e tranquila,
que só deixa ver a imagem que está à superfície, espreitando o interior do poço.
E o resto?
Pois, isso não sei!
É turvo, difuso, muitas vezes incoerente, turbulento, tem matizes múltiplas de cores e... e é preciso querer descobrir mais, sempre um pouco mais.
Por isso acho que não te conheço bem, consigo encontrar no teu mundo,
na tua maneira de olhar, de dizer, no teu gesto, num sorriso, algo que ainda não tinha visto ou prestado a devida atenção.
Quanto a mim... a busca é o caminho e se há máscaras fáceis de pôr e retirar,
há sempre outras que é preciso reconhecer para poder manter quando quero
ou abandoná-la definitivamente e caminhar mais leve!
Não te conheço todo, por isso te amo assim, num sentimento que se expande em cada nova descoberta.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Sinto Muito


Nuno Lobo Antunes é daquelas pessoas que todos nós desejamos nunca ter que encontrar sentado atrás de uma secretária, de bata branca. A sua profissão assusta mais do que o escuro ou os papões que vivem dentro dos armários e nos retiravam o sono quando crianças. Uma formação trouxe-o ao meu local de trabalho e, consequentemente, levou-me a comprar o seu último livro Sinto Muito. Eu é que sinto muito tê-lo "abandonado" na estante da sala junto daqueles outros livros que ainda não foram lidos e que esperam dias de menos trabalho, de maior vontade, de uma centelha de curiosidade, de tempo...

Este é um livro que não se lê no comboio, nem no tempo "morto" de uma esplanada, perdoe-me o autor se o escreveu para esses momentos pois não encontrou em mim essa leitora. Os retalhos das suas histórias e memórias enquanto criança, jovem, estudante, médico e Homem são profundas, algumas divertidas e muitas vezes duras, retalhos de outras histórias, de outras vidas, em que, na maioria das vezes, a única coisa a ouvir foi este seu sinto muito! Pequenos capítulos onde somos levados para uma esfera de sofrimento, dor e uma coragem que ultrapassa, frequentemente, aquilo que achamos o ser humano ser capaz. Com uma escrita viva, fluída e sentida que nos impele a ler mais, a querer ler mais, a conhecer mais um pouco da pessoa que brilhantemente me fez "colar" à cadeira do auditório sem desejar que a conversa/formação chegasse ao fim. O Nuno Lobo Antunes é, naturalmente, um comunicador brilhante. Ao ler o livro descobri que é também um fantástico escritor e contador de histórias... gostaria que o seu ilustre professor (grande escritor português) pudesse lê-lo agora! Ficaria certamente orgulhoso do seu aluno mediano, que de mediano tem, seguramente, muito pouco! O seu testemunho levou-me a uma reflexão e a uma conclusão que me entristece... se o Nuno Lobo Antunes fosse um aluno nas nossas escolas de hoje não seria médico, como é, porque as médias que limitam a entrada dos nossos jovens alunos nas faculdades utilizam unicamente o número como forma de selecção dessa entrada. Um aluno mediano e que conhecia bem, ou muito bem a tangente, porque era sempre assim que passava é, a partir do momento em que inicia Medicina um aluno brilhante é mais do que uma forma de nos fazer reflectir na quantidade de talentos que desconhecemos nos nossos alunos e quantas dessas capacidades são desperdiçadas em sonhos por cumprir...



Que me perdoem os direitos de autor mas não resisto a um excerto:


Judas e o Menino Jesus brincavam com o barro. Faziam pássaros os dois. Os passarinhos do Menino Jesus eram perfeitos, de bases lisas e seguras, sustentavam-se no chão, como no ar. Eram tortos os de Judas. Se tivessem penas, penas faltariam, e, decerto, não haveria cantos ou trinados. Judas então, percebendo a diferença, pisou os seus pássaros, destruiu-os um a um e, extinta a criação, avançou de pronto para os do Menino Jesus. Aflito, pequenote, o Deus franzino bateu as palmas e os seus passarinhos, de barro vestidos, bateram as asas, cruzaram os céus. Só mais tarde me dei conta de que gostaria que Nosso Senhor, ao bater as palmas, tivesse também elevado nos ares as aves menos perfeitas, tombadas, assimétricas, acabadas por mãos humanas com inveja dos santos. Porque as aves imperfeitas também sonham um dia erguer-se do chão, ainda que o seu voo seja raso, curta a sua visão.


Excerto retirado da obra de Nuno Lobo Antunes, Sinto Muito , Lisboa, verso da Kapa, 2008, pp. 17/18

Segunda-feira, Junho 29, 2009

... E o pano fechou...


Ontem, o dia 28 de Junho de 2009 tinha, por si só, razões para me emocionar... fazia precisamente 1 ano que tinha estado no Politeama a assistir, da 1.ª fila (nem vale a pena comentar que a cadeira era a mesma), a um incrível espectáculo que marcou profundamente a minha vida. Há um ano atrás, junto à porta dos artistas, fui empurrada pela minha mãe para pedir um autógrafo... devia estar vermelha como um tomate, porque envergonhada estava mais do que muito. Este ano o estado de espírito era diferente...

A peça era outra, o elenco também, mas o desejo de lá estar era igual! Não queria deixar passar o fim deste espectáculo.
O almoço foi divertido, bem-disposto, com direito a brigadeiro, fotografias e colheres de galão...

O espectáculo aquilo que se esperava, um derramar de talento que chegava até nós na música, nas vozes, na representação, nas coreografias e, principalmente, na entrega de alma. Não foi a primeira vez que assisti mas foi a última, por isso, as músicas tiveram um sabor diferente do habitual e, trauteando as letras fui-me despedindo, segundo a segundo, música a música, de mais este musical. Ao longo de todo o espectáculo, em cada entrada de um novo actor, na mudança do cenários, no fim das músicas... as palmas saíam da plateia com a naturalidade do respirar. Eramos todos um corpo de mãos a dizer Obrigada, a reconhecer humildemente o vosso inesgotável talento e a expressar, sem palavras, que seja o que for que venha a seguir, no palco, atrás dele ou fora dele manteremos as palmas e o carinho.

Com o cair do pano e os aplausos gerais, as mãos não doiam por isso continuamos a bater palmas. O discurso do Mestre foi emocionado, divertido e, mesmo sem som no microfone a sua voz chegou a todos no seu reconhecimento pelo excelente trabalho de todos. Parabéns por mais este projecto! E agora todos em conjunto: VIVA O TEATRO!

E assim foi... o pano caiu e os cenários começaram a deixar de existir!

Cá fora a espera foi pautada pela continuação dos disparates, pelas fotografias loucas e por uma boa disposição que servia para disfarçar a tristeza que sentiamos e que procurámos diminuir com carinho. Não vou especificar nomes mas um beijinho especial de agradecimento a todos aqueles que nos dedicaram um bocadinho do seu tempo para nos acarinhar com um sorriso, uma palavra ou, especialmente com um abraço apertadinho e um até logo!

A vocês que partilharam comigo mais esta saída, mais este cair de pano um agradecimento especial por tudo, em especial pela vossa amizade! Às que acabaram de chegar, espero o reencontro, para breve, numa outra qualquer aventura cultural, porque a vida é escassa e só faz sentido se encontrarmos o caminho que é feito de sorrisos e flores.

A ti que não pudeste ir connosco, cumpri o prometido e levei-te guardada dentro do coração e aplaudi também por ti.

Meu querido, quando passares por aqui, não podia passar sem te deixar uma palavra especial de agradecimento por tudo o que este ano partilhamos. Não desapareças! Aproveita bem para descansar e, qualquer coisinha, já sabes, fazes o favor de avisar... e mesmo que não aconteça nada... dá notícias na mesma!... a palavra era incondicional e não incontestável mas pronto, eu perdoo-te.

Beijo grande e um abraço apertado. Mais uma vez Parabéns e Obrigada por tudo! Sempre!


Isto hoje ficou assim um bocadinho para o lamechas mas pronto!
Eu sou assim e não há nada a fazer!

Beijoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

Domingo, Junho 21, 2009

Ataque de saudosismo agudo


Hoje é dia de ataque de saudade em último grau! Faz hoje um ano que entrei pela primeira vez naquele espaço que me é agora, tão querido, nesta minha Lisboa de encantos. Haviam-me dito "prepara-te que eu sei que vais adorar o espectáculo!"... pois, adorar não é a melhor palavra para descrever aquilo que vivi na segunda fila do teatro...

O espectáculo foi... inesquecível, de tal forma que, ao chegar a casa sabia já que queria voltar rapidamente... uma semana depois voltaria para a experiência da primeira fila!

Saudades deste musical, muitas...

Mas este dia é também especial porque, ao cruzar as portas deste teatro, há um ano atrás, nunca me passaria pela cabeça que ia acabar por encontrar as pessoas que hoje fazem parte do meu quotidiano! Por isso, hoje é também dia de me lembrar, com um sorriso, das palmas dadas em retribuição de tanto talento e por tudo aquilo de bom que trouxe para a minha vida. (Su, D., E., R. ... e todas as outras(os)... obrigada pelas aventuras, disparates, gargalhadas, saídas culturais, almoços e jantares , partilhas... e weeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!)


Pronto, já chega! é melhor ficarmos por aqui que é difícil recordar este musical e este dia :)

Aiiiiiiiiiiiiiiiiiii saudades!!!


É mesmo razão para dizer "nunca te esquecerei!"