sexta-feira, março 02, 2007

- Olá!
Pousei o copo sem pressas sobre a mesa de madeira castanha do bar. Levantei os olhos em direcção à voz que se dirigiu a mim. Não a conhecia, mas prendi-me nos seus olhos cinzentos. Tinha o cabelo castanho, um pouco desgrenhado e dirigia-me um sorriso.
- Não te lembras de mim?
- Humm! Sinceramente não. Desculpa!
A sua face corou envergonhada, vislumbrei por breves momentos a sua mão direita a cerrar para disfarçar um tremor...
- Desculpa! Pensei que fosse outra pessoa.
Deu meia volta, cruzou apressada o bar e abriu a porta. Não olhou para trás quando a fechou atrás de si. Deixou no ar um leve perfume de Primavera. E em mim gravada a imagem dos seus olhos misterios e profundos que pareciam encerrar inúmeros segredos de passados longínquos. A verdade é que não acabei a cerveja que estava a beber antes de ser interrompido por aquela figura. Deixei o dinheiro suficiente para pagar a minha despesa e mais para uma gorjeta para a empregada de mesa que conheço há tanto tempo que nem sei bem de onde, nem quando descobri o seu nome, e corri apressado pelo bar em direcção à porta. Não sei explicar que impulso louco me levou a fazê-lo, não posso dizer que tivesse uma voz dentro de mim a dizer para parar porque não iria servir de nada, já não a ia encontrar. Não pensei em nada. Uma vontade indiscritível de lhe pedir desculpa pela minha falta de cavalheirismo, de lhe dizer que me deu vontade de a conhecer melhor, de saber que segredos esconde por detrás dos seus olhos misteriosos, de não saber nada disso, mas que precisava de companhia para beber mais um copo no bar e afogar a verdadeira vida, sem nada de diferente ou de novo que levo. Queria só dizer Obrigado por ela me ter acordado do adormecimento que é o meu dia-a-dia de solidão... Casa, rabalho, bar, casa e novamente a mesma rotina.
Não sei quantas ruas, travessas e estradas cruzei em busca do seu perfume e dos seus olhos... desisti finalmente quando a noite caiu... percebi que tinha perdido o meu tempo. Mas a verdade é que agora, em frente de uma cerveja inacabada espero olhando para a porta que ela volte a entrar para lhe dizer tudo isso.
Pouso os olhos no copo em frente e o seu perfume invade novamente o meu mundo, levanto os olhos, desloco-me até três mesas à minha frente e digo:
- Olá! Tenho a certeza que já nos conhecemos!

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