sexta-feira, março 30, 2007

A paragem do comboio

Há dias apanhei o comboio para Lisboa quando, de repente este parou junto à Estação de Sta Cruz /Damaia. Pousei o livro que estava a ler e olhei para o exterior, depois, em vez de retomar a leitura que até estava a ser agradável, dei por mim a olhar atentamente para os meus vizinhos de carruagem. Todos tinham a mesma expressão: oscilava entre o despreocupado e o apressado, no entanto, pelo canto do olho havia a mesma interrogação "Porque está o comboio aqui parado?". Contudo, a expressão permanecia imperturbável, como se fosse o mais natural do mundo. Impacientavam-se tentando dar uma impressão tranquila. À minha frente uma senhora de ombros cansados devorava freneticamente uma sandes de ovo, que devia ser certamente o seu almoço; ao seu lado, estava uma outra mulher que, com aparente tranquilidade aproveitou esse momento para tirar da mala o seu minúsculo espelho e retocou o batom e o lápis dos olhos. Do outro lado, um senhor de fato cinzento já gasto, fazia rodar o seu anel de forma persistente, mas, assim que sentiu os meus olhos pousados no objecto metálico que trazia no dedo, parou de imediato e procurou esconder o seu símbolo. Devo confessar que, por alguns segundos ou minutos que não sei precisar, fiquei fascinada com a possibilidade de descobrir que símbolo tão fantástico seria aquele que necessiatava de ser tapado. Acabei por desistir. À sua frente repousava um jovem estudante de Direito, e só conclui que devia estudar Direito porque trazia um livro enorme com uma risca vermelha, repleto de marcadores amarelos e verdes; olhava para o relógio de forma incessante e começou a bater com o pé. Tive quase a sensação que se ia levantar e gritar com o maquinista, mas não, descruzou a perna e voltou a cruzar.
As pessoas começavam a mexer-se cada vaz mais impacientemente quando o comboio deu um balanço para iniciar a marcha e quase se desenharam sorrisos de triunfo... falso alarme! Um rapazinho no banco atrás do meu, fazia perguntas insistentes à mãe, tia ou avó que o acompanhava e que já estava a perder a paciência. "Porque é que o comboio está parado?" - "Não sei. Já vai andar". "Ainda falta muito para chegarmos?"
Não ouvi mais a conversa, o comboio deu um pequeno estalido e arrancou suavemente, acabei por descer em Sete Rios sem saber qual o símbolo do anel, se ainda faltava muito para a criança chegar ao destino, se o rapaz estava atrasado e se era mesmo estudante de Direito, se alguém ia notar a maquilhagem retocada, dando-lhe um sorriso de satisfação pela preocupação... mas mais do que isso, não saberei jamais os seus nomes e se teriam algo a acescentar à minha vida, sem ser apenas uma passagem fugaz de um encontro no comboio a caminho de Lisboa.

Vg

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