Seriamos nós, como somos
se um Eloquente rei não tivesse tido
a demência de criar tal palavra?
Esse emaranhado de dor, temor e fel
que nos deixa sem fôlego só de a proferir baixinho
no silêncio mudo do nosso coração temeroso.
Saudade...
Saudade de quê? de tudo e de nada,
de alguma coisa por cumprir
e que ficou sempre aquém mar
e não partiu nunca
com as velas pátrias das caravelas.
Marinheiros de sonhos
partiram incautos para um mundo por existir
mas, a saudade que levavam no peito
e semearam nas praias,
perdeu-se nas vagas azul celeste dos oceanos
e não chegou aos olhos maravilhados
e maravilhosos de quem nos acolheu.
Essa torrente demente e incontrolada
que nos habita o peito e as lágrimas,
que soa em todas as guitarras,
na voz lamuriosa de risos das fadistas de xaile traçado
de penas e mágoas,
que já foi descrita e reescrita
por todos os poetas...
mas que não pode ser entendida por outros.
Temo esse nevoeiro denso
que enche de lágrimas os meus olhos de mar,
por essa saudade ainda por criar.
Por isso, não é sentir falta de, como em tantas outras línguas,
porque existe já saudade em mim
por aquilo que há-de vir um dia,
no despontar de qualquer manhã
límpida e tranquila de Tejo.
1 comentário:
Acho que só os povos que falam português sabem o que é sentir "saudade", já que é uma palavra exclusiva da nossa língua... Os outros povos sentem a falta, tal como bem disseste, enquanto nós sentimos "saudade".
Mais vez achei o teu texto lindo, a fazer lembrar algumas das minhas aulas de história e português, onde se falava dos descobrimentos e da partida dos homens para o mar imenso, ainda por descobrir.
E, realmente, já sinto imensa saudade de ver um "homem que nunca mais acaba" a encantar-nos... Está difícil sair a data oficial.
A isso acumulo as saudades que tenho de uma música que tarda em ser divulgada. :(
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