
Acordei com o pregão já usado de uma varina,
corri para a janela,
tinha os pés descalços no piso molhado e frio
e apesar da voz alegre
tinha uns olhos negros, cheios de mágoas
por quem embarcou, e ainda mais por ela,
que ficou descalça no cais...
Estes olhos de noite sem estrelas,
estão pisados de sonhos desfeitos,
de despedidas sem regresso
para docas esquecidas em mundos
que esta varina de rugas gastas desconhece!
Tem a vida demasiado cansada
para conseguir verter mais lágrimas,
por isso chora com a voz em desgarradas
nas ruelas escuras
da cidade que a viu nascer
e que a irá abraçar quando abandonar
o negro olhar sem água
para se embrulhar num manto
ainda mais escuro que o que usa
quando canta e chora o Fado
que é a sua vida sem cor!
Chegará o dia em que a luz da esperança
escorrerá pelas ruas da sua cidade descalça
encontrando nos seus braços
os entes que abandonou nas vagas de espuma
num dia sem cor.
Se tal dia chegar,
os seus olhos serão finalmente da cor do mar
e a sua voz entoará num cântico de gaivotas
por toda esta cidade escura.
(Algures perdida numa gaveta...há quantos anos o escrevi não sei, mas achei que o podia postar)
3 comentários:
Que lindo! ADOREI!
Já devia ter saido da gaveta à mais tempo! :)
Bjos
Que mais pérolas destas tens tu aí nas gavetas à espera de verem a luz do dia?
Qualquer dia tens material para publicar um livro. Eu iria comprá-lo. ;)
Beijinhos grandes para ti e um bom resto de fim-de-semana. Até...
Fogo.. fantástico. Ainda bem que deste com ele na gaveta :P
Adorei.
Jinhos
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