quinta-feira, janeiro 22, 2009

Aprender a "amar"

Ficava a ver-te entrar para a sala de aula...
lembro-me de suspirar,
de desejar com todas as forças que voltasses os olhos para trás.
Recordo aquelas manhãs em que saía mais cedo
apenas para te encontrar no caminho para a escola,
só para ir durante todo o percurso
a desejar que me esperasses ao portão...
e no dia em que esperaste mesmo?
O meu coração quase parou,
as palavras perderam-se durante todo o dia
no sorriso vago que se fixou nos meus lábios.
Como eram despreocupados esses tempos,
quando, sentada no muro do pátio
cantavamos no intervalo as canções que estavam na moda,
quando te aproximavas discretamente
para nos ficares, distraidamente, a ouvir.
Quando me perdia a ver os jogos de futebol,
na esperança vã de me dedicares um golo,
que nunca me dedicaste,
tal como eu também nunca te dediquei nenhuma música...
no entanto, elas eram todas tuas,
como eram para ti todas as palavras soltas
que nas folhas dos cadernos de Matemática ia enchendo,
palavras essas que se perderam sem que as chegasses alguma vez a ler...
Foi um amor inocente
entre aquele a que tinha dedicado toda a minha infância de bonecas
e qualquer coisa diferente
que ainda não sei se era amor!
Hoje, tantos anos passados
recordo-te de olhar tranquilo
sem aquele agitar de alma da altura,
mas com uma súbita certeza que qualquer coisa ficou...
as recordações do perfume que trazias
um dia mais especial em que, talvez num gesto irreflectido,
quase tocaste nos meus lábios com os teus,
com as tuas mãos frias
ou simplesmente com o olhar insaciado...
aquilo que ficou foi uma saudade pacífica,
uma das recordações mais bonitas de infância,
daquelas que são ainda mais belas porque se mantiveram imaculadas
sem rancores, com apenas um sorriso doce de saudade desses tempos
onde aprendia a amar.

1 comentário:

The Star disse...

Bem a propósito da nossa conversa de hoje, sobre a idade e como o nosso espírito se mantém jovem. Eu disse que me sinto uma adolescente e foi isso que recordei ao ler as tuas palavras, a minha adolescência que… foi maravilhosa! Foram tempos bem loucos, com muitas aventuras, rodeada de amigos que ainda hoje recordo e claro, as paixões e os amores, uns platónicos, outros mais reais, as baldas às aulas para estar com aquela pessoa, ou para estarmos em grupo, as escapadinhas aos salões de jogos… e sim, as muitas cantorias que se entoavam, algumas ao som da viola…Bons tempos, sem preocupações, tão inocentes e sem receios.
Mais uma vez obrigada por me transportares a estes tempos tão distantes, mas que sabem tão bem recordar sempre!
Beijinhos grandes para ti.