
...
- Conta outra vez o que fazias quando eras menina!
Uma centelha de luz ilumina os meus olhos cinzentos,
deixo-me enrolar no manto doce das recordações,
desse passado já tão longínquo em que as imagens já têm um brilho gasto, amarelado
tal como as fotografias antigas.
Era sempre como um jogo...
os meus pais e eu, e claro, a Rosa que estava na cozinha,
eramos os actores dessa brincadeira de fingir.
A lista das compras nesses dias era mais extensa que a habitual
e compravamos no mercado
coisas diferentes, coloridas, cheiros que eu achava exóticos.
Nesses dias a minha mãe comprava sempre flores vermelhas
e ia buscar as jarras que tinha guardadas no armário da sala de jantar.
Sempre que perguntava porquê
ela respondia que as meninas bonitas não faziam perguntas
e que ser curiosa era muito feio...
a certa altura, deixei de fazer perguntas!
E comecei a entrar no jogo.
Fazia de conta que todo o movimento da casa era o habitual,
a minha mãe mantinha as conversas do quotidiano,
levemente interrompidas por uma ordem especial para a cozinha.
Nesses dias comecei a fazer de conta
que ficava com sono mais cedo
e a minha mãe de olhar cúmplice e entendedor,
sorria e deixava-me subir para o quarto.
Hoje, tenho a certeza que ficava feliz e que me agradecia.
Ficava com mais tempo para preparar o jantar, as bebidas, a sala e para se arranjar.
Antes dos convidados chegarem,
subia as escadas de madeira, que faziam um leve ranger,
abria a porta do meu quarto,
aconchegava-me a roupa e perguntava se queria ouvir uma história...
- Hoje não, o dia foi cansativo! Durma bem, mãe...
Depositava-me um beijo leve na testa e saia
deixando um rasto quente e floral de perfume pelo quarto.
Depois, era só esperar pela chegada dos convidados.
O meu coração começava a ficar apertado e a bater acelerado, em descompasso.
As noites em que vinham as fadistas eram sempre as que mais gostava,
se eram só os senhores de bigode e fato escuro
acaba por subir mais cedo,
apesar de gostar do cheiro da cigarrilha e de os ouvir falar.
Falavam de coisas proibidas, tinham opiniões tão diferentes
daquilo que eu aprendia na escola,
discursavam de uma forma livre e poética, pensava eu!
Por isso, hoje, quando deixo elevar a minha voz num fado vadio
não sou só eu que canto,
é o jogo que fazia com a minha mãe durante o dia,
o roçar da saia atarefada da minha Rosa,
a formalidade de trato com o meu pai, que hoje, tenho a certeza que me via sempre,
sentada nas escadas, enrolada no xaile da avó Lu,
de olhos ensonados mas maravilhados
pelas vozes quentes, bairristas
que aqueciam as paredes da minha casa.
É também a voz daquelas mulheres belas e atrevidas e dos poetas...
E, sempre que vinha aquele senhor gordo e bem disposto recitar poesia,
sabia que a noite ia ser longa, divertida e vibrante.
... Não consigo travar as lágrimas
ao recordar esses tempos,
despreocupados e inocentes
em que nos degraus das escadas de madeira
sonhava que um dia o meu pai me iria buscar
para me deixar cantar uma desgarrada com as fadistas
de lábios vermelhos e de vestidos compridos.
Mas as meninas não podem cantar assim!
Como estava enganado o meu pai...
A liberdade que tinha naquelas noites
levava-me para outros becos, botecos, ruelas perdidas de Lisboa,
para as casas de fado, para o cais...
e cantava toda a noite em silêncio!
Deixava essa canção correr livre no meu peito
e encher a minha voz de emoções.
Agora, que posso falar de forma livre
como uma fragata que navega sem rumo;
deixo-me invadir de novo, sempre que canto
e que me enchem a voz estas memórias ternas
e outras ... tristes, violentas de desamores e desenganos.
Desculpa mãe, por não ser a menina bonita e bem comportada
que não podia ouvir certas coisas que não eram para a minha idade,
desculpa por dizer que ia dormir,
quando aquilo que fazia era descer as escadas
de camisa de dormir e pés descalços,
para vos ficar a ouvir.
Desculpa por nunca te ter dito
que sabia que a tua voz era a mais bonita de todas,
em todos os momentos que sorrias e dizias que não sabias cantar.
1 comentário:
Sou eu que estou frágil, ou os teus textos são sempre tão intensos que me deixam nostálgica? Isto no bom sentido. ;)
Mais um texto que acho lindíssimo.
Enviar um comentário