Domingo, Junho 07, 2009

Cansada

(Magritte)

Estou cansada! Farta, talvez seja a palavra mais adequada... isto de dar nomes aos sentimentos nem sempre é fácil, ou melhor, quase nunca!


Farta de ter que cumprir prazos, regras, tratados, horários, promessas. Esgotada por dentro quando o tempo não estica e acabo por não os conseguir respeitar. Estou cansada de ter que ser sempre uma boa menina, mesmo quando só me apetece bater a porta com força e desaparecer para parte incógnita durante uns dias ou semanas... o tempo que me apetecesse! Mas isto de se ter consciência e responsabilidades e maturidade e um conjunto de outros atributos que eu não me lembro de ter requisitado em parte alguma, torna tudo muito mais difícil. Hoje dei por mim a pensar sobre há quanto tempo não tenho tempo para poder cantar. Não! O cantar de ontem não conta! Porque não era espontâneo mas uma obrigação. Não é esse cantar! É aquele fluir de alma em notas de música, é qualquer coisa que pode agredir os ouvidos de quem, por um mero acaso me escuta, mas que me ilumina os recantos da alma. Pois... não me recordo, não me consigo lembrar da última vez que me permiti esse tempo para fazê-lo, despreocupadamente e sem parar abruptamente por estar a "perder tempo" com tanta coisa para fazer!

Por isso me sinto de alma cansada, como se faltasse tempo e luz nos meus dias e, quanto menos tempo tenho mais eu acho que não devo o gastar a fazer uma coisa que não tenha qualquer utilidade sem ser, simplesmente, a de me dar prazer!

Mas lá volta a consciência que também me grita aos ouvidos e faz estremecer todas as partículas do meu ser... relembrando-me que há muito tempo que digo que não quero que a minha vida seja como uma aguarela difusa onde o horizonte, a paisagem, as pessoas e os objectos não tenham os contornos definidos e se percam envoltos numa bruma espessa de tom pálido que se esbate e se mistura em todos os tons pastel. Eu quero que a minha vida seja como uma pintura a óleo, de cores vibrantes, intensas e onde até o horizonte seja perceptível no seu azul que o afasta de mim. Não sei pintar. Nem tempo tenho para tentar aprender. Mesmo sem jeito nenhum... eu gostava! Se eu soubesse pintar, seria como ter uma janela aberta para a minha alma. Ia talvez conseguir mostrar aos outros como sou, como é este mundo em que vivo e que é simplesmente, meu! Gostava de mostrar a forma como vejo as coisas, aquilo que me rodeia... ia ser mais fácil! Com palavras é tão complicado... elas perdem-se entre o coração, o cérebro, os olhos, a mão e, a caneta e quando a tinta escorre sobre o papel em que escrevo, aquilo que sai já não é nem metade do que sonhei e quis dizer. Não consigo, eu tento, mas não consigo escrever com a mesma rapidez com que as palavras me saem da alma. E, por outro lado, não tenho tempo para isso... se eu escrevesse sempre que me apetece... faltaria tempo e papel... se eu escrevesse à velocidade dos meus devaneios faltaria a tinta antes de acabar a introdução e faltariam as asas...

Queria ter tempo para poder dançar mais, despreocupadamente, contigo, sozinha, com alguém na galeria dos espelhos e deixar-me levar, sentir-me guiada, sem pensar. Apetecia-me rodopiar sobre a tijoleira gasta pelos séculos, por outros pés, que não os meus ou os nossos. Sem me preocupar se alguém estivesse a ver! O que é que importa? Ficava a achar que tinha ou que tinhamos enlouquecido? E depois? Quando andamos apressadamente a correr pelas ruas superiores ou do sub-solo desta minha cidade de olhos postos no relógio, sempre atrasados, sempre com pressa, de olhar cinzento e sem expressão... nessas alturas, ninguém nos acha loucos e muito menos pára para apreciar a tristeza desoladora desse espectáculo. E tudo porque estão todos cansados e fartos, como eu, e sem tempo para fazerem o que mais gostam, despreocupadamente, simplesmente pelo simples prazer de nos encher o coração e de nos fazer sentir felizes nesta efemeridade temporal que é a vida...

Preciso de descanso e de aproveitar para ser feliz!...

1 partilhas:

Susana disse...

Oooohh, não fiques assim.
Bem sei que há dias que só nos apetece mesmo é desaparecer do mapa, mas tenta ter calma, respira fundo, pensa nos bons momentos passados (saudades da infancia onde se fazia tudo e mais alguma coisa com a inocencia de quem ainda nao tem preocupaçoes, pois a vida era um mar de rosa) essa menina continua ai.

Comete loucura de quando em vez, fala alto, ri alto, diz uma babozeira, que importa (por vezes faço isso e digo: oh, ninguém me conhece).

Vai buscar os bons momentos passados e sente saudades do futuro... ele vai ser ser risonho.

Beijinhos querida.