Quebrei a barra do Tejo e quando isso acontece tenho sempre a mesma vontade cerrar os olhos e me deixar embalar pelas vagas tranquilas e por esse cheiro docemente salgado. Não precisaria de olhar para reconhecer os espaços e a minha chegada a casa. Regressar é sempre diferente de partir, já não existe o entusiasmo do desconhecido e a excitação das aventuras e dos mundos incógnitos, a chegada é tranquila e terna, são os braços apertados de quem espera no cais, os sorrisos rasgados que anunciam as saudades, são as cores perturbadoramente belas desta cidade tão linda ao entardecer, são os cheiros de outras épocas, de outras chegadas, de outras velas, de outros cascos ... de porões vazios de sonhos e cheios de tranquilidade em regressar. Ouço, por trás dos meus ouvidos as Tágides, sei que os poetas clássicos dizem que elas não cantam, mas eu sei que cantam esse fado bairrista dos becos mais escuros de Lisboa, terão certamente um xaile negro, os olhos fundos e os cabelos desalinhados, não pelo revolver das ondas, que essas são sempre tranquilas, mas pela tristeza mais funda que o Tejo, de todos aqueles que partiram em busca dos sonhos e não viveram o tempo necessário para receber o contentamento do regresso e de poderem ouvir as musas.
Mas eu, que cruzo as águas deste meu Tejo, vivencio esse encantamento em apoteose...
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