Marcamos encontro nas Portas de Santo Antão,
naquela rua de artistas, de varinas, ardinas e de gentes vindas das Sete partidas do Mundo.
Sorri ao ver passar com as suas tintas e pincéis um artista de rua,
desses que pintalgam com o seu sorriso e traço
as ruas desta minha cidade.
Uma espanhola, talvez de Sevilha, pegou na sua guitarra e começou a cantar.
Não tinha a voz mais melodiosa que já ouvi,
mas encheu-me os sentidos com uma sonoridade agradável.
Pelo menos com música não me sinto aqui tão só!
Gostava mais que fosse um fado, mas não tive essa sorte...
Apurei os sentidos,
deixei de ouvir a música que soava e por trás dos meus ouvidos soou o trinar de uma guitarra
e fez-se silêncio!
Não sei que Fado comecei a cantar, porque ouvi um burburinho que me desviou as atenções.
Começavam a chegar as pessoas que se juntavam à porta do teatro.
Fechei um pouco mais o casaco,
subia uma aragem fresca e meio salgada do Tejo.
Certamente que as pessoas que se amontoavam para entrar não a sentiam,
estavam a viver outras emoções,
já deviam conseguir tocar o cheiro das tábuas do palco e da emoção dos actores.
Subo até a cima o fecho do casaco e ponho as mãos nos bolsos,
não sei se o arrepio que senti foi do vento que soprava com mais intensidade
se foi da saudade do teatro,
a falta que me faz estar na plateia,
mas principalmente, a saudade de estar atrás do pano à boca de cena...
de todas as histórias de outras personagens que vivi e, principalmente,
das que deixei de viver por achar que não valia a pena correr,
que a minha estrada me levava para outros destinos.
Quase que agradeci ao senhor que passou por mim para me entregar um papel,
não que eu não soubesse onde ia jantar
mas por me ter resgatado dessas memórias que me estavam a deixar triste...
coitado, aqui estava de papel estendido e eu
envolta nos meus pensamentos de que queria fugir,
e nem o tinha visto.
Um outro passou, dizendo a um grupo de raparigas que Jesus estava a chegar...
Não pude conter um sorriso...
tudo se passa nestas minhas ruas de Lisboa.
Esperam-se amigos,
encontram-se feridas que queremos esconder,
perdem-se amores,
cruzam-se histórias de vida que jamais iremos conhecer,
partilham-se conversas e emoções com pessoas que não mais vamos ver,
fala-se de sonhos e viagens e projectos,
chora-se de alegria e outras vezes de desilusão,
constroem-se mentiras, poemas, quadros e canções...
- Olá! Já estás aqui há muito tempo?
O que vou responder?
Uma vida inteira de pensamentos e de desconhecidos...
O suficiente para me apaixonar,
para saber que estou viva,
para ter viajado por outras vidas que já foram minhas,
por ter tocado inúmeras histórias que nestes breves momentos cruzaram a minha.
O tempo suficiente para ter morrido de tédio
se não fosse a minha imaginação e aquele fado escondido que cantei e me acompanhou, se não fossem os artistas que passavam e a emoção das pessoas nas escadas do teatro,
ah! e dos senhores que me resgataram das lembranças tristes.
(Pensei nisto tudo, mas não o disse!)
- Vamos jantar? Estou cheia de fome!
(foi a minha resposta, bem mais simples que os meus pensamentos, mas não queria dar mais explicações.)
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