Existem palavras doces, feitas de veludo escarlate
que nos envolvem e nos transportam nos braços de Orfeu,
inebriados pelo seu toque de mel e frutos.
Existem palavras que nos tocam com mãos pacientes
que acabam por nos tomar num abraço apertado,
enlaçando-nos num momento mágico de entrega e entendimento...
Palavras que se tornam fogo ou gelo
depois de proferidas,
que nos congelam a alma como se do dia mais árido e inóspito de glaciar se tratasse.
Essas palavras que nos fazem sentir
como se estivessemos a sucumbir com a frieza desse som desconhecido
de punhal feito do mais fino cristal.
Mas se forem tecidas com fogo,
essas saem dos lábios, dos olhos e de cada parte do corpo,
como uma energia incontrolada, mágica, envolvente,
que nos tolda o pensamento e as acções
e o tempo e o espaço desaparecem,
perdidos nesse instante onde as palavras não passam de sussurros
e o mundo volta a fazer sentido.
Há momentos em que as palavras não espelham as razões do olhar,
onde é preciso esconder ou manipular as palavras.
Exercício difícil este, mas tão humano!
Há palavras libertadoras, alegres, tristes, piedosas e caladas...
essas, as múltiplas que em cada partícula de segundo
se prendem por trás dos lábios cerrados,
as que guardamos fechadas dentro do peito
e que jamais existirão para ser ditas, ou partilhadas,
as insuspeitas, as que seriam reveladoras de nós,
daquele verdadeiro Eu, que surge nas acções e se esconde nas palavras por dizer!
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