Hoje é noite de Fado...
esta tristeza sem tempo que me invade
fez-me ir buscar dentro da arca velha o meu xaile negro.
Tracei-o sobre o peito e prendi-o nos braços sem abraços,
deixei o trinar das guitarras sair dos discos antigos
e escorrer pelas paredes da minha casa caiada
e da minha alma despida de luz.
Apetecia-me saborear as lágrimas pesadas
dos séculos que compõem essas notas,
essas que hoje, me iluminam a alma
lavando, com o carpir do tempo
todas as penas, saudades e tristezas que me invadiram!
Hoje é noite de Fado,
porque sei que apesar de te esperar
de olhos postos na noite que cai,
a luz do nosso olhar não se vai cruzar,
porque as minhas mãos ficarão toda a noite despidas das tuas,
porque a lua lá fora me arranca versos de fados antigos.
Como pode uma noite que cai tão docemente
me saber a fel e frio?
Poderão as guitarras, tão nossas,
limpar a minha alma das trevas
e trazer para os meus lábios a luz das estrelas?
Hoje é noite de Fado vadio, de fado descalço
daquele que sai de dentro do peito
em notas de música por ter esgotado os olhos com lágrimas de sal,
aquele fado saudade, feito canção...
Perdoem-me os ouvintes que não têm escolha
e me ouvem cantar esta melodia
que não aprendi a interpretar
mas que me sai do peito e não consigo controlar...
Perdoem-me se desafino as cordas da guitarra
mas não sei parar a torrente.
O disco pára de girar e não aguentando mais
é mesmo à janela, olhando as estrelas
que se solta o grito deste fado arrastado que se inicia.
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