quarta-feira, julho 08, 2009

Sinto Muito


Nuno Lobo Antunes é daquelas pessoas que todos nós desejamos nunca ter que encontrar sentado atrás de uma secretária, de bata branca. A sua profissão assusta mais do que o escuro ou os papões que vivem dentro dos armários e nos retiravam o sono quando crianças. Uma formação trouxe-o ao meu local de trabalho e, consequentemente, levou-me a comprar o seu último livro Sinto Muito. Eu é que sinto muito tê-lo "abandonado" na estante da sala junto daqueles outros livros que ainda não foram lidos e que esperam dias de menos trabalho, de maior vontade, de uma centelha de curiosidade, de tempo...

Este é um livro que não se lê no comboio, nem no tempo "morto" de uma esplanada, perdoe-me o autor se o escreveu para esses momentos pois não encontrou em mim essa leitora. Os retalhos das suas histórias e memórias enquanto criança, jovem, estudante, médico e Homem são profundas, algumas divertidas e muitas vezes duras, retalhos de outras histórias, de outras vidas, em que, na maioria das vezes, a única coisa a ouvir foi este seu sinto muito! Pequenos capítulos onde somos levados para uma esfera de sofrimento, dor e uma coragem que ultrapassa, frequentemente, aquilo que achamos o ser humano ser capaz. Com uma escrita viva, fluída e sentida que nos impele a ler mais, a querer ler mais, a conhecer mais um pouco da pessoa que brilhantemente me fez "colar" à cadeira do auditório sem desejar que a conversa/formação chegasse ao fim. O Nuno Lobo Antunes é, naturalmente, um comunicador brilhante. Ao ler o livro descobri que é também um fantástico escritor e contador de histórias... gostaria que o seu ilustre professor (grande escritor português) pudesse lê-lo agora! Ficaria certamente orgulhoso do seu aluno mediano, que de mediano tem, seguramente, muito pouco! O seu testemunho levou-me a uma reflexão e a uma conclusão que me entristece... se o Nuno Lobo Antunes fosse um aluno nas nossas escolas de hoje não seria médico, como é, porque as médias que limitam a entrada dos nossos jovens alunos nas faculdades utilizam unicamente o número como forma de selecção dessa entrada. Um aluno mediano e que conhecia bem, ou muito bem a tangente, porque era sempre assim que passava é, a partir do momento em que inicia Medicina um aluno brilhante é mais do que uma forma de nos fazer reflectir na quantidade de talentos que desconhecemos nos nossos alunos e quantas dessas capacidades são desperdiçadas em sonhos por cumprir...



Que me perdoem os direitos de autor mas não resisto a um excerto:


Judas e o Menino Jesus brincavam com o barro. Faziam pássaros os dois. Os passarinhos do Menino Jesus eram perfeitos, de bases lisas e seguras, sustentavam-se no chão, como no ar. Eram tortos os de Judas. Se tivessem penas, penas faltariam, e, decerto, não haveria cantos ou trinados. Judas então, percebendo a diferença, pisou os seus pássaros, destruiu-os um a um e, extinta a criação, avançou de pronto para os do Menino Jesus. Aflito, pequenote, o Deus franzino bateu as palmas e os seus passarinhos, de barro vestidos, bateram as asas, cruzaram os céus. Só mais tarde me dei conta de que gostaria que Nosso Senhor, ao bater as palmas, tivesse também elevado nos ares as aves menos perfeitas, tombadas, assimétricas, acabadas por mãos humanas com inveja dos santos. Porque as aves imperfeitas também sonham um dia erguer-se do chão, ainda que o seu voo seja raso, curta a sua visão.


Excerto retirado da obra de Nuno Lobo Antunes, Sinto Muito , Lisboa, verso da Kapa, 2008, pp. 17/18

3 comentários:

The Star disse...

Já me tinhas mostrado este extracto e já na altura me tinha tocado profundamente. Não só fala de 2 personagens que tanto nos dizem, como a mensagem implícita é belíssima.
Não conheço de todo a obra deste autor, mas talvez tu me possas iniciar na sua leitura. ;)
Um beijo enorme para ti.

Jorge Vieira Cardoso disse...

a partilha é tal, que o Homem fez-se médico de dores quase sempre incuráveis.

parece dificil perceber tamanho sentimento, quando nos deparamos com médicos que de médicos apenas têm o nome.

Bom livro , Bela pessoa
beijo solidário

papiro disse...

Olá Jorge, obrigada pela passagem e pelo comentário.

Beijo solidário ;)