Quinta-feira, Setembro 10, 2009

"A turma tinha vinte e seis alunos e era a décima do sexto ano. Os Bons, os Maus e os Águas faziam parte dela. Como todas as turmas da Escola, tinhas as suas beldades, os seus palhaços, os seus Quixotes... e uma multidão de Sanchos.
As crianças do 6.º 10.ª eram uma amostra da população escolar. Umas tinham pais ricos, outras tinham pais pobres - muito pobres ou pouco pobres - e outras não tinham pais ou, se tinham, não sabiam. Algumas eram felizes, outras estavam na dúvida, outras pensavam que não. Gostavam todas de rir, estudavam muito pouco e eram raras as meninas que não tinham namorado ou esperança de vir a ter.
Entre si eram diferentes. Eram loiros e morenos, tinham sardas e borbulhas, olhos azuis e castanhos, óculos pouco assumidos com medo de uma bolada ou a alcunha de "cangalhas", e portavam-se de acordo com a sua natureza e vida familiar. Quando um professor deixava, trepavam as paredes e ... "Viva a rebaldaria!", mas se os mantinha cuidados na palma da sua mão, baixavam as guardas todas, levantavam a viseira e rendiam-se à firmeza, se a firmeza tinha amor.
Falar daquelas crianças é alinhar pedacinhos dos puzzles das suas vidas. Defini-las e explicá-las já não seria possível pois, indivíduos que são, serão sempre inatingíveis no rosto da sua alma. Todavia, quem os conheceu bem e privou com eles, até mais do que a família, sente que sempre houve alguns a quem foi dado o chegar à porta do seu castelo... Por dois anos? Por um momento?...
É isso o que uma escola tem de triste: eles vêm e recebem doses de ternura, saber e atenção e depois vão-se embora e não voltam mais. Para quem os conheceu, o tempo não passa; podem crescer, ter barba, bigode, casar e ter filhos que, no coração onde se instalaram, são sempre meninos e não crescem mais.
E, ao acolher cada ano os que chegam, ao comparar falhas, virtudes, sorrisos, há sempre a tendência de apelar para o passado, à procura dos outros que deixaram marcas, e eram tão iguais aos que agora chegam.
É assim que se pensa notando semelhanças: Meu Deus, a princesa das neves voltou! E o Manel, o Toninho... E, olha a Adélia e a Mariazinha!...
Então o tempo pára, a história repete-se e não custa tanto perdê-los mais tarde, pois ano após ano, tornam a voltar.
(Maria Lucília Bonacho - O Futuro está a estudar)
Encontrei este texto perdido ou, se quiserem, guardado dentro de uma gaveta lá de casa. Já não me lembrava dele, mas assim que o comecei a ler as lágrimas surgiram inevitavelmente. Usando o exemplo dado pelo texto, alguns olham o castelo do lado de fora e nunca se atrevem ou conseguem ultrapassar a porta de madeira para anunciar a sua chegada, outros há que, se ficam pela porta do castelo e, como chegaram, partem da mesma forma, sem anúncio prévio, deixando um rasto da sua passagem, como uma fragrância que permanece. E há os outros... aqueles que partem, sem partir, que regressam para matar as saudades ou para deixar ainda mais! Aqueles que abrem com estrondo a porta do castelo e exigem conhecer os seus recantos ou que sobem as escadas bem devagarinho e aproveitam para espreitar as divisões todas. Esses serão sempre os meus meninos e não vão crescer nunca!
Beijo grande a todos aqueles que entraram dentro do meu castelo ou a quem eu permiti que entrassem e que voltem sempre, porque deixam mesmo saudades e eu não gosto de ficar com saudades. Dói!

1 partilhas:

The Star disse...

Ao tempo que não escrevias aqui. Que saudades!!!
Já presenciei momentos em que reencontras alguns dos "teus" meninos e sei bem como ficas emocionada, o que é normal. Por mais que sejas profissional, és humana e crias laços com todos eles, uns de uma forma outros de outra.
Descreveste uma passagem que ainda hoje reconheci. Para ti eles não crescem, serão sempre os teus meninos. Hoje estive com uma pessoa que já não via há imensos anos e ele, apesar de ser um homem de barba rija, continua na mesma... Muito vivemos nestes anos, muito se passou entretanto, mas parece que nunca nos tínhamos separado, pois apesar do aspecto físico ter mudado (eu e ele), o menino que eu conheci ainda está lá dentro. É tão bom reencontrar pessoas que vamos deixando para trás, pelas circunstâncias da vida.

Um beijo enorme minha querida.