Há muito pouco tempo faleceu um dos meus escritores preferidos, aquele que fui descobrindo já adulta, quase a medo. Diziam que era de difícil leitura, que a pontuação era estranha, que as personagens eram bizarras, que isto e que aquilo. Talvez por tudo isto e pela quantidade de livros publicados tive curiosidade de o ler, talvez por nenhuma destas razões mas por outras inexplicáveis. O certo é que a medo, peguei numa primeira obra e apaixonei-me pelas personagens fabulosas, pelas pequenas histórias dentro da verdadeira história, pelos pensamentos cruzados da ou das figuras que vão crescendo em múltiplas dimensões no desenrolar dos acontecimentos. Falo, obviamente, de José Saramago. Razões políticas e religiosas à parte, fui descobrindo uma escrita livre que nos permite uma maior capacidade para criar as suas, que se tornam nossas, personagens; fui-me deixando envolver pelos cenários plausíveis e pelo irrealismo das situações tantas vezes caricatas e peculiares. Foi com pesar, verdadeiro pesar que recebi a notícia, depois do almoço, que havia falecido este escritor que fui aprendendo a gostar. Felizmente deixou-nos uma vasta obra, que será sempre curta perante tudo aquilo que tinha para nos contar... Foram inevitáveis as lágrimas, como aquelas do cão das lágrimas, personagem verdadeiramente prodigiosa, mais forte do que muitas das personagens humanas, inevitável foi também a corrida à estante da sala para abrir e começar mais uma viagem ao seu mundo fántástico que é o mundo das suas palavras...
Ontem nova tristeza para mim ao saber pelo Jornal da Noite que mais uma estrela da nossa literatura nos deixou. Se conheci Saramago há relativamente pouco tempo, quando tive curiosidade e vontade de o descobrir, Matilde Rosa Araújo foi com quem cresci, aprendendo a gostar de ler, bebendo as suas palavras cheias de musicalidade. Se há poemas que me lembro da minha infância são os de Matilde, aqueles que o tempo ainda não conseguiu apagar e que estão gravados na minha memória pela quantidade de vezes que eram repetidos.
O meu pequeno e modesto tributo a estes dois nomes que estimo e por cuja obra literária tenho o respeito e reverência, são estas minhas singelas palavras e a certeza de que os continuarei a ler.
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