Gostava de gritar bem alto os meus sonhos,
conseguir colocar em palavras os mundos e abismos que me habitam,
que os que me rodeiam pudessem ser enlevados pelas minhas palavras e entrar nessa névoa densa que me toda os sentidos e as mãos.
Escrevo, apago, rasgo, regresso e não escrevo!
Quando algumas palavras saem de forma desajeitada dos meus lábios,
perdem-se nas lágrimas e em ideias desconexas...
o texto, tantas vezes ensaiado no silêncio do meu ser,
soava tão diferente aos meus ouvidos...
quase que conseguia sentir as paredes ganhar vida,
pulsar com os meus desejos, inquietações e palavras.
Agora que digo, em tom quase inaudito essas ideias ensaiadas,
emudeço-as... amordaço-as no meu peito porque quando saem parecem ditas por outros lábios, por outras mãos, por outras gentes.
Os meus sonhos eram mais violentos, mais densos, mais intensos, imensamente mais intensos, agora,
depois de ditos, são apenas e só algumas palavras que não podem rasgar a tua pele como quando as pensei... passam, ao de leve, não interrompendo sequer o teu sono inocente a meu lado.
Por isso não sei como poderás algum dia saber quem sou,
como poderá alguém, alguma vez, saber como sou ou como fui...
as palavras são esparsas para descrever uma flor e aquilo que eu vejo da flor e o que sinto quando olho para diversas flores... portanto, como posso eu ousar querer colocar em palavras quem sou para que me conheças melhor, para que me sinta menos só,
envolta por estes muros altos que me cercam, a menina que sonha e que canta histórias sem fim...
Pudesse eu dar som a essas palavras ou a essa ladaínha de sons que habitam em mim
e talvez me olhasses com estranheza,
como se essa não fosse eu!
Espero que me conheças pela menina presa dentro do meu peito, em algum momento, quando as palavras se emudecem, nesses pequenos momentos em que as palavras não fazem sentido porque nos encontramos nos olhos de quem nos ama...
Sendo assim guardo algumas palavras, ou todas, para mim e dou-te os meus braços recheados de flores e de encantos.
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