Puxei o travão de mão e parei suavemente no semáforo vermelho. Deixei cair os meus olhos pela rua iluminada por um sol tímido de Inverno, olhei com pouca atenção as pessoas apressadas que corriam na passadeira. Nesse momento o teu rosto assaltou o meu pensamento, mas vindo de onde? De que vida anterior chegaste? Não me lembrava desses traços há milhares de séculos, pensei até que a minha memória te tinha apagado, mas a verdade é que ali, num sítio perdido na imensidão desta cidade furiosa, na solidão do meu carro com cheiro a baunilha, voltaste aos meus olhos que se encheram de água... de saudade... de ti! Desapareceste da minha vida sem mais aparecer e com o passar do tempo fui apagando a tua presença, os teus sinais em mim.
Mas agora, inesperadamente nesta cidade morta, o teu perfume fresco e sempre intenso invadiu o meu carro pelas portas trancadas e as janelas fechadas não conseguiram travar a sensação de estares ali, talvez no banco de trás a olhar para os meus olhos azuis de lágrimas, pelo retrovisor.
Talvez não tivesses desaparecido assim, sem mais voltar se alguma vez, nos mais escuros sonhos suspeitasses que ainda hoje, penso em ti... assim, com esse sorriso sempre posto, o cabelo desalinhado e a sinceridade dos teus olhos azuis ou verdes (nunca consegui perceber a sua verdadeira cor, mas que pouco interessam por detrás da sua beleza singela).
Um vulto avermelhado passou a correr na passadeira e tive quase a certeza que eras tu que corrias para apanhar o comboio que deveria estar quase a chegar pela agitação das pessoas na estação... ainda toquei no botão para abrir o vidro e gritar o teu nome, mas as palavras perderam-se no silêncio de uma buzina atrás de mim.
O sinal tinha esverdeado e não me podia prender mais naquele lugar, nem sequer pela tua imagem, não podia fazer mais nada do que me deixar levar pela estrada que se abria à minha frente... seguir em frente com a minha vida e sem nunca te ter dito, a falta que verdadeiramente me tens feito estes anos todos.
Digo-te aqui, onde sei que não me vais ouvir, mascarada por palavras que são poucas ou muitas, consoante a vontade assim dita e pela certeza que nunca as vais ler.!
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