Quando a escrita termina num beco sombrio de vácuo, é quando a minha imaginação flui em teorias e expressões que desaparecem demasiado rápido para as conseguir apanhar numa folha de papel. Sempre que ouço alguém ter uma ideia bonita ou alguma forma de poesia me assalta a ideia num bando de autocarro, sei que é sempre tarde demais. A poesia da vida escorre pelas minhas mãos e já nem sequer tento segurá-la, já entendi que esse sentido é demasiado perfeito para ser impresso pelas minhas mãos cálidas. Abandono-me a esse entendimento de desalento e de confiança. A vida é como uma Primavera em que a cada instante as flores se apagam de cores uma vez que são frágeis de mais para as conseguir exprimir em palavras ou imagens. Uma flor, é sempre uma flor e não comporta dentro de si a própria ideia da Primavera e no entanto é como uma sua parte que a complementa e embeleza. Também a escrita não deixa de ser uma pequena parte, sempre imperfeita, de uma verdade inalcansável de beleza transcendente que é a própria vida e que nunca niguém vai conseguir pintar com palavras, cores ou imagens, porque somos infinitamente pequenos para o conseguir abarcar. Descrevo pequenos momentos e palavras, mas nunca a epopeia dos sentidos e das emoções, porque essas abarcam aquilo que sou e não eu a elas. Jamais conseguirei cantar as belezas do quotidiano porque sou só mãos e olhos e mãos e corpo... só isso posso descrever... e nem isso, na sua plena essência. O resto, aquilo que me habita, já me ultrapassa e suplanta, tal como as próprias imagens de beleza sublime que encantam os meus sentidos ao longo dos meus dias. Por mais inspiração me guie a alma, a mente, as mãos e os sentidos, não vou ser nunca capaz de escrever o meu sorriso de determinados momentos, quanto mais o daquele que me enche o dia de cheiros, cores, sons e sensações.
Tudo isto, também não me impedirá de continuar a tentar... a vida é mesmo assim. Não se ganham as batalhas, mas também ser perfeito, seria mau demais.
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