Cap. I
Faz precisamente, no dia de hoje, três anos que a minha vida começou a mudar. Novamente hoje, me sento no sofá da minha casa e revejo todo o tempo decorrido. Recordo sem pressa, os momentos passados e sem hesitações conheço todo o decorrer desse tempo.
No dia em que conclui a última cadeira do meu curso, embora sem ter conseguido alcançar uma grande média, sentia-me feliz por essa etapa de estudo, exames, festas, tardes e noites percorrendo cafés e botequins onde, com os meus colegas de Universidade, discutíamos e discursávamos em alegres tertúlias onde se debatia tudo, excluindo os temas das aulas; ter terminado.
Nunca fui um aluno brilhante, mas esforçava-me por conseguir alcançar resultados que satisfizessem os meus pais, embora soubesse sempre que nota alguma o fosse conseguir. A sua exigência era tanta ou tão pouca que nunca louvavam os meus esforços, mas jamais deixavam de recriminar as minhas mais pequenas derrotas. Nunca percebi e talvez nunca vá desculpar essa característica dos meus pais. Portanto, na maioria das vezes as notas que procurava tirar eram muito mais para alimentar o meu ego, do que propriamente para satisfazer alguém, sem ser eu próprio. No entanto, as tardes em que tinha de pegar nos livros e abstrair-me de toda a realidade envolvente, davam-me um aborrecimento de morte.
Por outro lado, ansiava pelos dias em que me trajava a rigor e passeava pelo átrio universitário com a minha capa colorida e era com um estranho prazer que saboreava os inícios de cada ano lectivo, com a recepção aos novos alunos. Esses “caloiros” chegavam ainda com a curiosidade estampada no olhar, existia neles ainda o desejo de descobrir o mundo novo que se abria agora, através das portas férreas da faculdade. Eu, já conhecia todos os cantos deste espaço que era, sem que eu o sentisse, uma espécie de segunda casa. Portanto, cada vez que vestia o traje, para receber estes novos membros da grande associação estudantil, regozijava-me do meu aspecto superior que o traje me concedia. Era uma espécie de actor principal, eles eram os actores secundários que entravam a medo nesta cena que era ainda desconhecida e eu... sabia que estava a representar os últimos actos.
Nos cafés falava acesamente sobre todos os assuntos e eram momentos em que me sentia bem e divertido, contrariando forçosamente a minha natureza tímida e poética.
Quando finalizei o curso e me instalei no apartamento que os meus pais me ofereceram, foi com alguma tristeza que percebi que aqueles bons tempos de estudante tinham terminado e que eu afinal, tinha absorvido de todo aquele ambiente culto, muito pouco. Trazia junto ao peito e para toda a vida alguns amigos, não muitos, porque a amizade não deve ser partilhada com toda a gente, só com quem a merece e também muitas lembranças de pequenos ensinamentos, que verdade seja dita, não me recordo sequer de ter prestado atenção no dia em que eles foram ditos, mas que hoje recordo e utilizo como grandes máximas para a minha vida. Ensinamentos, trocados em conversas informais com os professores, já no corredor, no átrio e também no café em frente à universidade; outros que passaram por mim dentro das quatro paredes da sala de aula e que sem me aperceber entraram dentro do meu pensamento e se fixaram verdadeiramente para toda a vida.
Na minha sala, que pintei de um amarelo bem claro, para condizer com o exterior do prédio, coloquei em frente da janela, que se abre sobre o Tejo, um sofá de pele bege, que comprei numa loja do Bairro Alto e onde gosto particularmente de me sentar. É talvez o lugar preferido da minha casa. Foi talvez pela janela virada para o rio que eu fiz a loucura, de bater o pé e escolher este apartamento na Graça, para grande desgosto dos meus pais, uma vez que dizem sempre que me encontro demasiado longe. Ou então, talvez tenha sido exactamente para estar mais longe que eu o escolhi.
Depois de um dia completo fechado em casa, decidi com toda a convicção e empenho que tinha que arranjar um emprego... o dinheiro desaparecia rapidamente do banco e sozinho em casa é que não podia mais estar. No dia seguinte, de manhã, quando o relógio da D. Domingas bateu as 9 horas da manhã, levantei-me do aconchego dos meus lençóis verde água, que uma tia minha me havia oferecido quando fizera 19 anos. Tomei um banho bem quente, fiz a barba e vesti o meu jeans preferido com a minha camisola de lã azul-escuro e os meus ténis azuis. Lavei os dentes fiz rapidamente a cama e arranjei o quarto. Bati a porta determinado que nesse dia iria encontrar um emprego que me agradasse. No caminho para o café, parei num quiosque verde, que ainda nessa altura desconhecia que iria passar a ser uma das minhas paragens habituais. Comprei todos os jornais que traziam classificados e antes de pagar, o senhor que estava dentro do quiosque meteu conversa comigo, falou-me do tempo que tão agradável que estava nestes finais de Setembro. Ainda não tinha reparado nele, era um homem na casa dos cinquenta anos, a quem a idade trouxera uma certa robustez e uma quantidade enorme de cabelos brancos. Trazia uma camisa azul, aliás como saberei depois, que traz sempre, uma vez que não veste senão essa cor. Mas trazia consigo algo mais, e foi isto que me cativou de imediato, tinha um sorriso aberto e franco, deixando ver os dentes completos e muito alinhados. Tinha na testa rugas fundas que lhe davam um ar prazeiroso e simpático. Depois de me devolver o troco, meti os jornais debaixo do braço e dei os bons dias ao homem que tinha acabado de conhecer e que me havia parecido, de veras simpático.
Corria uma aragem fresca nessa manhã e fiquei satisfeito por ter vestido a minha camisola de lã azul. Entrei num café que me pareceu sossegado e agradável e sentei-me junto a uma janela que dava para o largo. Aí pedi um sumo de laranja e um croissant de ovo, a um empregado que estava com cara de quem não tinha dormido de noite. Por isso, não me atrevi a meter conversa e decidi aproveitar o tempo para ir lendo os jornais e começar a minha procura nos classificados.
Ao fim de algum tempo, que não consigo precisar, a minha mesa de café resumia-se a um emaranhado de folhas de jornal, cheias de círculos vermelhos com pequenas observações escritas nas margens. Decidi pois, pagar o pequeno-almoço e ir para casa. Não me lembro de ter percorrido o trajecto de volta, nem sequer de me deixar afundar no sofá da sala, certo é que me deixei rapidamente envolver por um certo torpor. Esqueci os desejos de encontrar trabalho, ainda mais devido ao facto, de nenhuma das informações dos jornais me satisfazer plenamente. Fui acordado num sobressalto pela estridente campainha da rua. Abri a janela da sala e do varandim espreitei para a rua, e foi com agrado que corri a abrir a porta à minha amiga Anabela.
Vg
2 comentários:
isto parece um diario pessoal LOL porm achei interessante.. eu parecia um voyeur!! ciau
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